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maio 18, 2026

Vibe Coding + Produto: pare de construir coisa que ninguém pediu

1. Antes de abrir a inteligência artificial, fecha o ego. A maioria das pessoas não tem uma ideia de negócio. Tem uma vontade fantasiada de aplicativo. A pessoa fala: “vou criar uma plataforma”. Tá. Para quem? Para resolver qual problema? Essa pessoa sofre com isso toda semana? Ela já tenta resolver de outro jeito? Ela pagaria, indicaria ou pelo menos sentiria falta se isso existisse? Se a resposta for não, você não tem produto. Tem decoração digital. O primeiro passo é escolher uma pessoa real e escrever três coisas: quem ela é, qual dor ela sente e o que ela já faz hoje para tentar resolver. Isso é o começo do que o mercado chama de ICP, ou perfil de cliente ideal. Em português honesto: é saber exatamente para quem você está falando. Depois vem o Job to be Done, que significa “o trabalho que a pessoa quer resolver”. Ninguém compra uma furadeira porque ama furadeira. Compra porque quer furar a parede. Ninguém quer mais um aplicativo. A pessoa quer ganhar tempo, vender mais, evitar vergonha, economizar dinheiro, parecer profissional ou parar de sofrer com uma coisa chata que se repete. Clayton Christensen e seus coautores explicam que inovação funciona melhor quando você entende por que as pessoas “contratam” um produto para resolver um problema da vida delas. Produto não nasce da sua empolgação. Produto nasce de uma dor que encontrou forma.

2. Depois da dor, escreva uma promessa simples. Sem promessa clara, seu produto vira labirinto com botão bonito. Use esta frase: “Meu produto ajuda [pessoa] a resolver [problema] sem [sofrimento principal]”. Exemplo: “Meu produto ajuda professores autônomos a cobrar alunos atrasados sem precisar mandar mensagem constrangedora todo dia”. Percebe? Uma criança entende. Um adulto ocupado entende. Um cliente entende. Agora transforme essa promessa na menor versão útil do produto. O nome técnico é MVP, ou produto mínimo viável. Mas vamos traduzir sem palestra de LinkedIn: MVP é o menor produto que já ajuda alguém de verdade. Não é produto ruim. É produto sem vaidade. Se o produto é sobre cobrança, ele não precisa nascer com painel lindo, avatar fofo, comunidade, gamificação, plano anual e animação de foguete. Ele precisa cadastrar aluno, valor, data e gerar uma mensagem útil. O resto pode esperar. Eric Ries, no método Lean Startup, defende justamente começar pelo problema, criar uma versão mínima, medir o uso e aprender rápido com dados reais. Construir demais antes de validar é só uma forma cara de fugir da realidade.

3. Agora entra o Vibe Coding: você conversa com a IA para construir, mas continua sendo o adulto da sala. Vibe Coding é usar linguagem normal para pedir que a inteligência artificial crie código, telas e fluxos de produto. A IBM define como um jeito de programar em que a pessoa explica a intenção em linguagem comum e a IA transforma aquilo em código executável. Bonito. Poderoso. Perigoso também. Porque se você não sabe o que quer, a IA constrói sua confusão em alta velocidade. Então não peça: “crie um app perfeito”. Isso não é comando. É oração. Peça em blocos pequenos: primeiro a estrutura, depois a tela inicial, depois o cadastro, depois a função principal, depois os erros, depois o visual, depois os testes. Um bom pedido para a IA tem cinco partes: objetivo, público, função principal, regras e resultado esperado. Exemplo: “Crie uma versão simples para professores autônomos cobrarem alunos atrasados. O público não entende tecnologia. A função principal é cadastrar aluno, valor e data, e gerar uma mensagem pronta de cobrança. Não adicione funções extras. A interface precisa funcionar bem no celular”. A IA acelera execução. Ela não substitui clareza. Se você entrega bagunça para a máquina, ela devolve bagunça com login.

4. Produto bom faz a pessoa chegar rápido no valor. O resto é enfeite tentando parecer estratégia. Quando alguém entra no seu produto, essa pessoa precisa entender rápido o que fazer e por que aquilo ajuda. Esse momento é o Aha Moment: a hora em que o usuário pensa “entendi, isso serve para mim”. No exemplo da cobrança, o caminho certo é curto: entra, cadastra aluno, coloca valor, clica em gerar mensagem e copia o texto para o WhatsApp. Pronto. Valor entregue. Se antes disso você colocou três telas de boas-vindas, cadastro gigante, tutorial chato e painel parecendo cockpit de avião, você não criou produto. Criou obstáculo. B. J. Fogg, da Universidade Stanford, propôs um modelo simples de comportamento: uma pessoa age quando tem motivação, consegue fazer aquilo com facilidade e recebe um gatilho no momento certo. Traduzindo para uma criança de 10 anos: se é difícil demais, a pessoa desiste; se não entende o valor, ela não liga; se ninguém lembra ela, ela esquece. Então deixe o produto fácil, claro e útil. Não venda tecnologia. Venda alívio. Não diga “sistema automatizado de gestão de cobranças recorrentes”. Diga: “mande cobranças profissionais em 30 segundos”. A pessoa não compra feature. Compra menos dor.

5. Depois que publicar, pare de se apaixonar pela própria criação e olhe os dados. Produto no ar não é vitória. É só o começo do constrangimento. Agora você vai descobrir se alguém liga. Meça o básico: quantas pessoas chegaram, quantas clicaram, quantas se cadastraram, quantas usaram a função principal e quantas voltaram. Se muita gente entra e ninguém clica, sua promessa está ruim. Se muita gente começa e ninguém termina, seu produto está difícil. Se todo mundo usa uma vez e some, talvez você tenha criado curiosidade, não valor. Crescer não é postar igual desesperado. Crescer é melhorar o produto até ele ficar fácil de entender, fácil de usar e fácil de indicar. Aí entram as alavancas: botão de compartilhar, convite para amigos, indicação, e-mail útil, lembrete, teste grátis e conteúdo explicando o problema. Mas presta atenção: essas coisas só funcionam se o produto resolver uma dor real. Botão de compartilhar em produto inútil é só panfleto digital. A pergunta final é cruel e libertadora: se isso sumisse amanhã, alguém sentiria falta? Se a resposta for não, você ainda está testando. Se a resposta for sim, você começou a construir um negócio. FODAMENTE é isso: parar de brincar de fundador e começar a construir valor que alguém sente na vida real.

Referências bibliográficas

Christensen, C. M., Hall, T., Dillon, K., & Duncan, D. S. (2016). Know Your Customers’ “Jobs to Be Done”. Harvard Business Review, September 2016.
Christensen, C. M., Anthony, S. D., Berstell, G., & Nitterhouse, D. (2007). Finding the Right Job for Your Product. MIT Sloan Management Review, 48(3), 38–47.
Ries, E. (2011). The Lean Startup: How Today’s Entrepreneurs Use Continuous Innovation to Create Radically Successful Businesses. Crown Business.
Fogg, B. J. (2009). A Behavior Model for Persuasive Design. Proceedings of the 4th International Conference on Persuasive Technology. ACM.
Norman, D. A. (2013). The Design of Everyday Things. Revised and expanded edition. Basic Books.
Osterwalder, A., Pigneur, Y., Bernarda, G., & Smith, A. (2014). Value Proposition Design: How to Create Products and Services Customers Want. Wiley.
Moore, G. A. (1991). Crossing the Chasm: Marketing and Selling High-Tech Products to Mainstream Customers. HarperBusiness.
Rogers, E. M. (2003). Diffusion of Innovations. 5th ed. Free Press.
IBM. (2025). What is Vibe Coding? IBM Think.
Willison, S. (2025). Not all AI-assisted programming is vibe coding. Simon Willison’s Weblog.

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