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Radar editorial · pensamento em público

Editorial · 20/06/2026 · 6 min

Alguém Ainda Precisa Gerar Sentido

Narrativa de marca não é campanha com frases bonitas. É uma forma de construir mundo. Quando uma marca entende isso, ela para de pedir atenção e começa a merecer presença. Conteúdo de marca, quando tratado com profundidade, não é conteúdo para ocupar calendário, alimentar rede social ou justificar mídia. É linguagem estratégica. É cinema, cultura, comportamento, ponto de vista e produção trabalhando juntos para fazer uma marca deixar de parecer anunciante e começar a agir como autora. Narrativas de Marca importam tanto: porque tratam o tema no lugar certo, não como enfeite de campanha, mas como disciplina. Marca forte não é a que aparece mais. É a que significa melhor. Como afirma Holt (2004), marcas icônicas não se constroem apenas por diferenciação funcional, mas pela capacidade de condensar tensões culturais e devolver ao público uma forma simbólica de pertencimento.

O problema é que, por aqui, conteúdo de marca muitas vezes ainda é tratado como filme institucional com verniz cinematográfico. Falta conflito. Falta atmosfera. Falta tensão narrativa. Falta entender que uma marca não vira relevante quando invade a vida das pessoas, mas quando cria uma experiência que elas aceitam atravessar. Jenkins (2009) mostra que as histórias deixaram de viver em uma única peça: elas circulam entre plataformas, comunidades, cortes, eventos, comentários, bastidores e conversas. Isso muda o jogo. Um conteúdo de marca não pode ser pensado como um vídeo isolado, mas como ecossistema narrativo. A marca entra como campo de força, não como interrupção. Entra como mundo, não como assinatura no canto da tela. É o que séries e projetos como The Hire, da BMW Films, demonstraram muito antes de o mercado chamar tudo de conteúdo de marca: o produto está ali, mas o que segura a atenção é cinema, atmosfera, desejo e direção.

No audiovisual, essa diferença aparece na forma. Um filme de marca não comunica apenas pelo roteiro, pela locução ou pela assinatura final. Ele comunica pelo enquadramento, pela luz, pela textura, pelo ritmo, pelo som, pela cor, pelo silêncio, pela escolha da câmera e pelo acabamento. Bordwell e Thompson (2013) lembram que o cinema nasce da relação entre narrativa e estilo; no conteúdo de marca, isso é brutalmente decisivo. Uma marca pode dizer que é sofisticada e entregar imagem genérica. Pode dizer que é humana e soar fria. Pode dizer que é inovadora e repetir todos os clichês visuais do mercado. Narrativa de marca separa intenção de execução. E execução, nesse caso, também é pensamento. Uma Aventura LEGO mostra isso com clareza: uma marca pode deixar de vender apenas produto e construir universo, linguagem, humor, conflito, personagem e visão de mundo. Quando isso acontece, o conteúdo deixa de parecer propaganda e começa a operar como cultura.

É nessa ponta que a inteligência artificial muda o jogo. IA aplicada à produção e finalização de conteúdo de marca não é apertar botão, gerar imagem bonita e chamar de futuro. Isso é espuma visual. O trabalho real começa antes: entender o conceito, organizar o briefing, decupar intenção, construir referências, testar caminhos, prototipar linguagem, prever gargalos e transformar uma ideia abstrata em entrega possível. Manovich (2020) ajuda a entender esse ambiente ao tratar a cultura digital como um campo de recombinação, automação e análise algorítmica. Mas recombinar não basta. No conteúdo de marca, é preciso saber o que está sendo recombinado, por quê, para quem e com qual efeito cultural. A IA entra na pesquisa, no painel de referências, no roteiro visual, na pré-visualização, na geração de imagens, nas vozes, nas versões, nas legendas, no tratamento visual, na montagem, na finalização e na distribuição. Mas ela só tem valor quando entra dentro de um método. Sem direção, ela acelera o vazio.

Minha força está justamente nesse cruzamento entre linguagem, produção e pensamento. A escrita aparece como ferramenta de precisão, não como ornamento. Escrever, nesse contexto, é organizar caos. É pegar um briefing nebuloso, uma referência torta, uma ansiedade de cliente, uma urgência de prazo, uma promessa de marca e transformar tudo em estrutura. McKee (2006) trata a narrativa como arquitetura de conflito, progressão e escolha; Vogler (2015) mostra como jornadas simbólicas organizam transformação, desejo e travessia. Essas referências importam porque conteúdo de marca não vive de frase esperta. Vive de tensão bem nomeada. Eu escrevo como quem monta: cortando excesso, ajustando ritmo, criando passagem, limpando ruído. Produzo como quem dirige: olhando para intenção, custo, tempo, equipe, risco, entrega e acabamento. Finalizo como quem entende que textura, corte, silêncio, cor e tempo narrativo também contam história. É menos currículo. É método. É menos “eu sei fazer”. É “eu sei atravessar”.

O conteúdo de marca que me interessa é esse: profundo, útil, bonito, estratégico e executável. Uma narrativa que não termina no filme, mas abre conversa, cria repertório e posiciona a marca dentro da cultura. Chef’s Table e Abstract: The Art of Design mostram como personagem, sensorialidade, detalhe, ritmo e ponto de vista podem transformar um tema específico em experiência cultural ampla. Ela, Ex Machina e Black Mirror ajudam a pensar a tensão entre tecnologia, desejo, subjetividade e controle — questões centrais quando a IA passa a participar da criação audiovisual. No fim, tecnologia nenhuma salva uma ideia fraca. A IA pode gerar imagem. Mas alguém ainda precisa gerar sentido. O que sustenta uma entrega é visão, método, escrita, repertório e execução. Não é ferramenta. É linguagem. Não é volume. É precisão. Não é parecer moderno. É construir algo que aguente ser visto.

Referências bibliográficas
BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A arte do cinema: uma introdução. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Edusp, 2013.
HOLT, Douglas B. Como as marcas se tornam ícones: os princípios do branding cultural. São Paulo: Cultrix, 2005.
JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.
KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 4.0: do tradicional ao digital. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.
MANOVICH, Lev. Análise cultural. Tradução livre de: Cultural analytics. Cambridge: MIT Press, 2020.
MARTEL, Frédéric. Mainstream: a guerra global das mídias e das culturas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Curitiba: Arte & Letra, 2006.
ROSE, Frank. A arte da imersão: como a geração digital está transformando Hollywood, Madison Avenue e o modo como contamos histórias. Tradução livre de: The art of immersion. Nova York: W. W. Norton, 2011.
SEMPRINI, Andrea. A marca pós-moderna: poder e fragilidade da marca na sociedade contemporânea. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2010.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores. 3. ed. São Paulo: Aleph, 2015.

Referências cinematográficas e audiovisuais
ABSTRACT: THE ART OF DESIGN. Criação: Scott Dadich. Estados Unidos: Netflix, 2017–2019. Série documental.
BLACK MIRROR. Criação: Charlie Brooker. Reino Unido: Channel 4; Netflix, 2011–. Série televisiva.
CHEF’S TABLE. Criação: David Gelb. Estados Unidos: Netflix, 2015–. Série documental.
ELA. Direção: Spike Jonze. Estados Unidos: Annapurna Pictures; Warner Bros. Pictures, 2013. Filme.
EX MACHINA. Direção: Alex Garland. Reino Unido: Film4; DNA Films, 2014. Filme.
THE HIRE. Direção: John Frankenheimer et al. Estados Unidos: BMW Films, 2001–2002. Série de curtas publicitários.
UMA AVENTURA LEGO. Direção: Phil Lord; Christopher Miller. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2014. Filme.
O DILEMA DAS REDES. Direção: Jeff Orlowski. Estados Unidos: Exposure Labs; Netflix, 2020. Documentário.

Ferramentas FODAMENTE · 15/06/2026 · 3 min

A força está na interseção

Entregar resultado em alto nível começa no cérebro antes de chegar na planilha, na câmera ou na inteligência artificial. O primeiro movimento é treinar atenção seletiva: separar ruído de sinal, ansiedade de prioridade, urgência falsa de tarefa real. Daniel Kahneman mostra que a mente alterna entre pensamento rápido e pensamento lento; quem produz bem aprende a usar os dois, mas não confunde impulso com decisão. A habilidade central é transformar confusão em mapa: observar o problema, nomear as partes, criar uma sequência e só então executar. Sem isso, talento vira espuma.

A segunda habilidade é construir repertório com método. Não basta consumir filmes, campanhas, livros, vídeos, imagens e tendências; é preciso decompor tudo. Uma peça boa deve ser estudada por luz, ritmo, textura, cor, narrativa, escolha de câmera, tensão emocional e função estratégica. Howard Gardner ampliou a noção de inteligência ao mostrar que existem múltiplas formas de perceber e operar o mundo: linguística, espacial, interpessoal, corporal, musical, lógico-matemática. O profissional raro é aquele que cruza inteligências: escreve como roteirista, enxerga como diretor, organiza como produtor, sente como artista e estrutura como sistema.

A terceira habilidade é transformar criatividade em operação. Criar não é esperar inspiração; é construir condições para que a ideia encontre forma. James Clear defende que resultados consistentes nascem de sistemas, não de explosões ocasionais de motivação. No trabalho criativo, isso significa criar rituais: briefing limpo, referências visuais, roteiro objetivo, JSON de cena, biblioteca de textura, versões controladas, revisão crítica e entrega final. A inteligência artificial entra aqui não como mágica, mas como extensão cognitiva: acelera variações, revela caminhos, testa hipóteses e obriga o criador a ser mais preciso.

A quarta habilidade é montar equipe como comunidade de pensamento. Uma equipe funcional não é um grupo de pessoas ocupadas; é uma rede com linguagem comum, padrão visível, confiança e critério. Peter Senge fala da organização que aprende; Seth Godin fala de tribos movidas por pertencimento e liderança simbólica. Em produção, isso se traduz em algo simples e difícil: todo mundo precisa saber o que está sendo construído, por que aquilo importa, qual é o padrão mínimo e como discordar sem quebrar o processo. Comunidade boa não elimina conflito; transforma conflito em refinamento.

A quinta habilidade é unir inteligência emocional, técnica e estética. O cérebro criativo precisa tolerar ambiguidade, pressão, erro e atraso sem perder direção. António Damásio demonstrou que emoção e razão não são inimigas; decisão boa depende das duas. Por isso, o manual é: perceber rápido, pensar fundo, estruturar melhor, sentir com precisão, executar com método, revisar sem vaidade e aprender em público. No fim, o diferencial não é parecer brilhante. É construir uma máquina humana de entrega: cérebro atento, repertório vivo, linguagem forte, equipe alinhada, IA bem dirigida e resultado que não precisa se explicar.

Referências bibliográficas: CLEAR, James. Hábitos atômicos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019. DAMÁSIO, António. O erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artmed, 1994. GODIN, Seth. Tribos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2013. KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. SENGE, Peter M. A quinta disciplina. Rio de Janeiro: BestSeller, 2018.

Publicidade e marketing · 03/06/2026 · 9 min

Marketing de Pertencimento

Marketing de pertencimento é a construção estratégica de uma marca que deixa de operar apenas como oferta e passa a funcionar como território simbólico de reconhecimento, linguagem, identidade e ação coletiva. Uma marca comum pergunta “como eu vendo?”; uma marca de pertencimento pergunta “quem a pessoa sente que se torna quando se aproxima de mim?”. Essa diferença é decisiva porque as pessoas não compram apenas produtos: elas compram sinais de identidade, pertencimento e significado. Belk (1988) demonstra que objetos, posses e marcas participam da construção do “eu estendido”, ou seja, aquilo que a pessoa usa, veste, compra, compartilha e defende ajuda a compor a imagem que ela tem de si mesma. Maslow (1954), por outro caminho, já posicionava amor, vínculo e pertencimento como necessidades humanas centrais. Raynsford (2022), em How to Start a Cult, radicaliza essa leitura no campo da marca: o produto é muitas vezes apenas o ingresso; o pertencimento é o espetáculo. Ninguém tatua uma marca no corpo porque ela entregou uma funcionalidade razoável. Ninguém defende espontaneamente uma empresa porque ela tem um funil organizado. A defesa nasce quando a marca responde a uma pergunta íntima: “quem eu sou quando escolho isso?”. Harley-Davidson, Apple, Supreme, Nike, Patagonia ou Tesla não operam apenas como fornecedoras de motos, computadores, roupas, tênis, jaquetas ou carros; operam como sistemas de identidade, distinção e narrativa cultural. Por isso, marketing de pertencimento não é manipular carência emocional. Manipulação tira poder da pessoa. Pertencimento devolve linguagem, direção e coragem. Manipulação diz “sem mim, você não é nada”. Pertencimento diz “você já sente isso; eu estou dando nome, símbolo e caminho”. Quando essa operação é ética, a marca não sequestra a identidade do público; ela oferece um território para que o público reconheça melhor a si mesmo.

O primeiro passo do marketing de pertencimento é formular uma crença central, porque nenhuma comunidade nasce ao redor de uma descrição burocrática. “Eu vendo curso”, “eu faço vídeo”, “eu tenho uma palestra” ou “eu crio conteúdo” são frases de categoria; servem para explicar, mas não para reunir. A crença é diferente: ela organiza uma visão de mundo. Ela diz o que a marca defende, o que rejeita, por que existe e por que alguém deveria se importar. Em termos de branding, essa crença funciona como núcleo de identidade, orientando promessa, linguagem, comportamento e percepção pública da marca (AAKER, 1996; KAPFERER, 2012). Uma crença forte precisa ser clara, contrastante e útil. Clara para ser entendida. Contrastante para ter posição. Útil para ajudar o público a interpretar a própria vida. “Ninguém muda de vida porque recebeu motivação; as pessoas mudam quando criam sistema, encaram a verdade e executam apesar do caos” é mais forte do que “conteúdo de desenvolvimento pessoal”, porque a primeira frase cria mundo, enquanto a segunda apenas ocupa uma prateleira. Raynsford (2022) reforça que movimentos fortes não crescem apenas dizendo o que amam; crescem também dizendo o que rejeitam. Apple não vendeu apenas computadores; vendeu a ideia de pensar diferente contra a computação burocrática. Tesla não vendeu apenas carros; vendeu ruptura contra a indústria automobilística tradicional. Patagonia não vende apenas roupa; vende responsabilidade contra o consumo inconsequente. Essa fronteira é vital porque, quando tudo é para todo mundo, nada é profundamente necessário para ninguém. Por isso, uma marca de pertencimento precisa escolher quem serve, quem não serve, o que acredita e o que combate. Não para criar ódio. Para criar forma. Forma é o que permite identificação. Sem forma, a marca escorre.

O segundo passo é definir o inimigo simbólico e o povo da marca, porque pertencimento exige fronteira, conflito e reconhecimento. Tajfel e Turner (1979), ao tratarem da identidade social, mostram que grupos se organizam por identificação e diferenciação: para existir um “nós”, é preciso haver alguma distinção em relação ao que “nós” não somos. No marketing de pertencimento, o inimigo não deve ser uma pessoa, uma classe ou um alvo humano; deve ser uma força simbólica que o público reconhece como obstáculo. Pode ser a procrastinação, a vida no automático, a criatividade sem execução, a autoajuda anestésica, o excesso de dopamina, o conteúdo sem alma, o vitimismo, o “um dia eu faço” ou a vergonha de começar pequeno. Raynsford (2022) chama atenção para a função estratégica do inimigo: movimentos fortes criam bordas claras, e bordas claras dizem às pessoas se elas pertencem ou não. Depois disso, a marca precisa abandonar a persona morta de slide e encontrar uma confissão real. Público-alvo diz “homens e mulheres, 25 a 44 anos, classe B/C”. Povo diz “adultos cansados que sabem que têm potencial, mas estão presos em boleto, culpa, ansiedade, distração, falta de método e vergonha de recomeçar”. Comunidade nasce quando a marca diz pela pessoa aquilo que ela ainda não tinha coragem ou linguagem para dizer sozinha. Na nossa Comunidade, o produto profundo não é o livro, a palestra, o curso ou a comunidade. O produto profundo é a identidade: “adultos cansados que decidiram parar de esperar serem salvos”. O inimigo é a anestesia adulta: vitimismo, procrastinação, dopamina barata, autoajuda vazia e planejamento falso travestido de prudência. O desejo superficial desse povo é “ser mais produtivo”. O desejo real é “organizar a vida e parar de se sentir um desperdício”. O desejo secreto é “provar que ainda posso ser alguém grande”. A frase certa não bajula nem humilha; organiza: “você não está atrasado porque é burro; você está atrasado porque passou anos sobrevivendo sem sistema”.

O terceiro passo é criar símbolos, linguagem, rituais e prova, porque uma marca de pertencimento não vive apenas de posicionamento; ela precisa ser reconhecida, repetida e praticada. Muniz Jr. e O’Guinn (2001) definem comunidades de marca como formas de comunidade não geograficamente delimitadas, sustentadas por relações sociais entre admiradores de uma marca, consciência compartilhada, rituais, tradições e senso de responsabilidade moral. Raynsford (2022) trabalha a mesma lógica em registro provocativo: tribos precisam de símbolos porque símbolos reduzem complexidade e funcionam como atalhos cognitivos. Uma cruz, uma bandeira, um slogan, uma cor, um gesto ou uma palavra dizem rapidamente: “você é um dos nossos”. Na nossa comunidade, os símbolos são facão, matagal mental, trator, centímetro periférico e a própria palavra FODAMENTE. A linguagem transforma esses símbolos em senhas sociais: Modo Boleto, Cassino de Dopamina, Queimada Controlada, Ninguém Vem Te Salvar, Diário da Morte, Caixa-Preta, Microajuste Brutal. Quando o público usa essas palavras para explicar a própria vida, a marca saiu do post e entrou na cultura. Mas linguagem sem ritual vira camiseta bonita sem corpo dentro. Ritual é a repetição que faz a crença parecer real. Assistir a um programa diariamente, ir ao estádio, usar um item específico, postar uma hashtag, participar de um evento anual ou cumprir um desafio semanal são práticas que consolidam lealdade. No FODAMENTE, o ritual pode ser o microajuste diário, o Diário da Morte, o Print da Execução, a Sexta da Caixa-Preta, os vídeos semanais ou os desafios de execução. O pertencimento não nasce apenas da crença proclamada. Nasce da crença repetida em comportamento. Por isso, conteúdo, nesse sistema, não é postagem solta; é convocação. Ele faz a pessoa ver, salvar, compartilhar, comentar, responder, entrar em uma lista, participar de um desafio, comprar uma oferta simples, entrar na comunidade e, finalmente, defender.

O quarto passo é transformar o pertencimento em arquitetura: liderança, manifesto, comunidade mínima, oferta inicial e repetição. Raynsford (2022) lembra que pessoas seguem pessoas antes de seguirem empresas, porque o líder é a versão humana da narrativa. Steve Jobs não era apenas executivo da Apple; era uma encarnação pública do “Think Different”. Elon Musk, Walt Disney e Arnold Schwarzenegger também funcionam, cada um à sua maneira, como figuras que condensam missão, mito, conflito e aspiração. Isso não significa criar personagem falso. Significa assumir a responsabilidade de representar a crença que se pretende liderar. Holt (2004) mostra que marcas icônicas respondem a tensões culturais e oferecem mitos capazes de organizar conflitos sociais; Jenkins, Ford e Green (2013) mostram que conteúdos se espalham quando carregam valor social, emocional e identitário para quem os compartilha. Portanto, uma marca de pertencimento precisa ser mais do que bonita: precisa ser transmissível. O manifesto declara a crença, o inimigo, o povo, a promessa, o ritual e a frase central. A comunidade mínima transforma isso em prática compartilhada. A oferta inicial transforma prática em compromisso. A prova transforma compromisso em reputação. Uma estrutura simples pode ser mais poderosa do que uma operação gigante: um desafio de cinco dias, uma aula aberta, uma comunidade mensal ou uma palestra podem funcionar se carregarem a mesma crença, a mesma linguagem, os mesmos símbolos e o mesmo ritual. Na comunidade FODAMENTE, o manifesto poderia dizer: “nós acreditamos que ninguém muda de vida só porque foi inspirado; rejeitamos a autoajuda anestésica e a fantasia do momento perfeito; lutamos contra a paralisia adulta; existimos para devolver método para quem ainda tem fogo, mas perdeu direção; aqui ninguém performa sucesso, prova execução; nosso ritual é cortar um pedaço do matagal por dia; nossa promessa é que você não vai vencer tudo hoje, mas vai parar de abandonar a si mesmo em silêncio; nossa frase é: não é talento, é sistema”. No fim, marketing de pertencimento é a passagem de atenção para devoção ética. Atenção diz “legal esse conteúdo”. Devoção ética diz “isso aqui sou eu, mas eu continuo livre”. Marca não é o que você posta; é o que as pessoas repetem quando você não está presente. Quando alguém encontra sua marca e pensa “era isso que eu estava tentando dizer”, você não tem apenas audiência. Você tem território. E território bem cuidado vira comunidade, produto, prova, reputação, cultura e movimento.

Referências

AAKER, David A. Building strong brands. New York: Free Press, 1996.
BELK, Russell W. Possessions and the extended self. Journal of Consumer Research, Chicago, v. 15, n. 2, p. 139-168, 1988.
HOLT, Douglas B. How brands become icons: the principles of cultural branding. Boston: Harvard Business School Press, 2004.
JENKINS, Henry; FORD, Sam; GREEN, Joshua. Spreadable media: creating value and meaning in a networked culture. New York: New York University Press, 2013.
KAPFERER, Jean-Noël. The new strategic brand management: advanced insights and strategic thinking. 5. ed. London: Kogan Page, 2012.
MASLOW, Abraham H. Motivation and personality. New York: Harper & Row, 1954.
MUNIZ JR., Albert M.; O’GUINN, Thomas C. Brand community. Journal of Consumer Research, Chicago, v. 27, n. 4, p. 412-432, 2001.
RAYNSFORD, Jody. How to start a cult: be bold, build belonging and attract a band of devoted followers to your brand. [S. l.]: Known Publishing, 2022. Dados editoriais consultados em fontes bibliográficas e comerciais que registram a obra como publicada pela Known Publishing, em 2021/2022, com ISBN 9781913717698/9781913717704.  
TAJFEL, Henri; TURNER, John C. An integrative theory of intergroup conflict. In: AUSTIN, William G.; WORCHEL, Stephen (org.). The social psychology of intergroup relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979. p. 33-47.

Publicidade e marketing · 29/05/2026 · 5 min

Ideias que Andam

A internet não premia o melhor conteúdo. Premia o conteúdo que entra rápido na cabeça, acende alguma coisa no peito e sai da pessoa em forma de compartilhamento. É cruel, mas é simples. Você pode escrever o texto mais inteligente do mundo; se ninguém consegue repetir, mandar, salvar ou usar aquilo para dizer “isso sou eu”, ele morre bonito. Engineered for sharing é exatamente isso: criar uma ideia já pensando no caminho que ela vai fazer depois que sair da sua mão. Conteúdo bom não é só publicado. Ele é carregado pelas pessoas. Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green explicam, em Spreadable Media, que uma mensagem não se espalha porque o público é passivo, mas porque as pessoas escolhem circular aquilo que tem valor social, emocional e identitário para elas (JENKINS; FORD; GREEN, 2013). Traduzindo sem frescura: ninguém compartilha só informação. A pessoa compartilha um pedaço de quem ela é.

Um meme é uma ideia que aprendeu a fugir do dono. Ele pode nascer como frase, imagem, vídeo, piada, gesto, bordão ou comparação, mas só vira meme de verdade quando outras pessoas conseguem copiar, adaptar e reconhecer. Richard Dawkins usou a palavra “meme” para falar de unidades culturais que passam de pessoa para pessoa, como músicas, hábitos e ideias (DAWKINS, 1976). Na internet, isso virou turbo. Um meme é uma cápsula de sentido com perna. Por isso, “você não está cansado, você está sem comando” bate mais forte do que “organize melhor sua rotina”. Uma frase parece diagnóstico. A outra parece cartaz de repartição pública. Um bom meme não explica tudo. Ele dá nome. Ele faz a pessoa parar por meio segundo e pensar: “desgraça, era isso”. Limor Shifman mostra que memes digitais funcionam porque são reconhecíveis, remixáveis e carregam postura cultural (SHIFMAN, 2014). Ou seja: meme não é só piada. Meme é linguagem em estado de guerra pela atenção.

A tal guerra memética, ou memetic warfare, é quando essa força dos memes vira estratégia para disputar percepção. Política faz isso. Marca faz isso. Movimento cultural faz isso. Fã-clube faz isso. A internet inteira faz isso, só que muita gente finge que é espontâneo. A lógica é direta: quem cria os símbolos que as pessoas repetem começa a influenciar como elas enxergam o mundo. Jeff Giesea, em texto publicado pelo NATO Strategic Communications Centre of Excellence, discute a guerra memética como uma disputa estratégica no campo da comunicação, da influência e da percepção pública (GIESEA, 2015). Mas aqui tem uma linha vermelha. Usar pensamento memético não é sair mentindo, manipulando, perseguindo gente ou fabricando realidade falsa. Isso é lixo com Wi-Fi. A versão ética é pegar uma verdade e comprimir até ela virar frase forte. A versão suja é falsificar a realidade para produzir medo, ódio ou obediência. Uma coisa é dizer: “isso não é planejamento, é procrastinação com planilha”. Isso nomeia um comportamento real. Outra coisa é inventar fato para empurrar narrativa. A verdade pode virar lâmina. Não pode virar fraude.

Por isso, quem quer criar conteúdo de verdade precisa parar de perguntar só “está bonito?” e começar a perguntar: “isso vira linguagem?” Porque conteúdo bonito recebe elogio e desaparece. Conteúdo que vira linguagem entra no vocabulário das pessoas. Cabe numa capa. Cabe num comentário. Cabe num print. Cabe numa conversa de bar. Cabe numa indireta. Cabe numa camiseta. “Você virou Wi-Fi grátis” é mais forte do que “aprenda a impor limites” porque não dá aula: cria cena. Todo mundo entende. Todo mundo visualiza. Gente conectando, usando, sugando, indo embora, e você lá, sem bateria, achando que ser disponível é ser amado. Isso é didático sem ser infantil. Profundo sem virar palestra. Popular sem ficar raso. A boa comunicação pega uma confusão interna e entrega uma frase que organiza o caos. Como defendem Jenkins, Ford e Green (2013), a circulação depende da apropriação ativa das pessoas. Em português bem direto: se a pessoa não consegue usar aquilo na própria vida, ela não carrega.

No fim, engineered for sharing é a engenharia. Meme é o projétil cultural. Memetic warfare é a disputa para decidir quais ideias vão morar na cabeça das pessoas. E a ética é o que impede tudo isso de virar manipulação barata. Para o FODAMENTE, o jogo é usar essa inteligência para transformar vida adulta em linguagem: boleto, ansiedade, fracasso, família, trabalho, autoengano, recomeço, medo, ócio, vergonha, comando. Não é fazer barulho por fazer. É criar frases que explicam o que as pessoas sentiam, mas não sabiam dizer. Conteúdo fraco pede atenção. Conteúdo forte sequestra o silêncio e devolve uma frase. E quando uma ideia dá nome à dor de muita gente, ela não precisa implorar para ser compartilhada. Ela anda sozinha.

Referências bibliográficas

DAWKINS, Richard. The selfish gene. Oxford: Oxford University Press, 1976.
GIESEA, Jeff. It’s time to embrace memetic warfare. Riga: NATO Strategic Communications Centre of Excellence, 2015. Disponível em: https://stratcomcoe.org/cuploads/pfiles/jeff_gisea.pdf Acesso em: 28 maio 2026.  
JENKINS, Henry; FORD, Sam; GREEN, Joshua. Spreadable media: creating value and meaning in a networked culture. New York: New York University Press, 2013. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/j.ctt9qfk6w Acesso em: 28 maio 2026.  
SHIFMAN, Limor. Memes in digital culture. Cambridge: MIT Press, 2014. Disponível em: https://direct.mit.edu/books/book/2214/Memes-in-Digital-Culture Acesso em: 28 maio 2026.  

Editorial · 27/05/2026 · 4 min

Conteúdo precisa ter porquê

Conteúdo ruim começa sempre com a mesma pergunta preguiçosa: “o que a gente vai postar?”. Conteúdo bom começa com outra: “qual percepção a gente precisa construir?”. Essa diferença parece pequena, mas separa uma marca que ocupa espaço de uma marca que só ocupa feed. Postar é fácil. Difícil é organizar sentido. Difícil é pegar um briefing cheio de ruído, um cliente cheio de urgência, um público sem paciência, um algoritmo bipolar e transformar tudo isso em uma narrativa que pare em pé. Gerenciar conteúdo não é abastecer calendário como quem repõe prateleira. É construir uma máquina de linguagem, posicionamento e desejo. Quem não entende isso vira operador de legenda. Quem entende, vira estratégia.

O conteúdo de uma marca não pode ser uma coleção de posts bonitinhos implorando por atenção. Ele precisa ter tese. Precisa ter voz. Precisa saber o que defende, o que recusa, que problema resolve e por que alguém deveria se importar. Marca que fala de tudo não é versátil; é desesperada. Marca que copia tendência sem filtro não é moderna; é carente. Tendência não é ordem. Formato não é estratégia. Viral não é posicionamento. Um bom gerente de conteúdo olha para redes sociais, blog, newsletter, vídeo, landing page, CRM, SEO e campanha como partes do mesmo sistema. Cada peça precisa trabalhar para uma ideia maior. Caso contrário, é só barulho com design aprovado.

A parte mais ignorada do conteúdo é que escrever bem não basta. Texto correto qualquer ferramenta entrega. Narrativa, não. Narrativa exige repertório, maldade boa, escuta, cultura, ritmo e capacidade de perceber onde está a tensão. Uma campanha pode estar linda e morta. Um post pode estar gramaticalmente impecável e completamente inútil. Uma marca pode publicar todos os dias e ainda assim não construir absolutamente nada. Pulizzi (2014) defende que conteúdo relevante nasce da entrega consistente de valor, não da interrupção desesperada. E é exatamente aí que muita comunicação quebra: confunde frequência com presença, volume com consistência, estética com direção. No fim, o público percebe. Talvez ele não saiba explicar, mas sente quando uma marca está falando só porque alguém mandou publicar.

Gerenciar conteúdo também é saber colocar ordem no caos sem matar a ideia no berço. Porque agência, marketing e comunicação vivem de urgência, revisão, reunião, ajuste, planilha, prazo, ego, dado, insight e “só mais uma alteraçãozinha”. Se não existe método, a criação vira incêndio. Se existe método demais, vira repartição pública com moodboard. O ponto é o equilíbrio: briefing claro, régua editorial, tom de voz consistente, cronograma possível, métrica interpretada e time orientado por critério. Métrica não é inimiga da criação. Métrica é o mundo respondendo. Mas número sem interpretação é só decoração de dashboard. Dado mostra sinal. Repertório explica. Estratégia decide. Como apontam Kotler, Kartajaya e Setiawan (2021), o marketing contemporâneo exige a integração entre tecnologia, experiência e humanidade. Traduzindo sem perfume acadêmico: ferramenta nenhuma salva uma ideia sem alma.

No fim, conteúdo é uma disciplina brutalmente simples e extremamente difícil: dizer a coisa certa, do jeito certo, para a pessoa certa, no contexto certo, com a coragem certa. O gerente de conteúdo bom não é quem corre atrás de toda novidade como cachorro atrás de moto. É quem entende o comportamento por trás da novidade. É quem sabe quando usar IA, quando usar dado, quando ouvir o social media, quando puxar o freio, quando defender uma tese e quando jogar uma ideia fora sem fazer velório. Sinek (2018) lembra que conexões fortes nascem de um propósito claro; Brown (2018) associa liderança à coragem de conduzir conversas difíceis com responsabilidade. Em conteúdo, isso vira prática diária: sustentar visão, melhorar o critério do time, proteger a verdade da marca e transformar comunicação em algo que resolve problema. O resto é post. E post, sozinho, não salva ninguém.

Referências bibliográficas — ABNT

BROWN, Brené. Dare to Lead: Brave Work. Tough Conversations. Whole Hearts. New York: Random House, 2018.
KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 5.0: Technology for Humanity. Hoboken: Wiley, 2021.
PULIZZI, Joe. Epic Content Marketing: How to Tell a Different Story, Break Through the Clutter, and Win More Customers by Marketing Less. New York: McGraw-Hill Education, 2014.
SINEK, Simon. Comece pelo porquê: como grandes líderes inspiram pessoas e equipes a agir. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.

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