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Publicidade e marketing

Marketing de Pertencimento

Marketing de pertencimento é a construção estratégica de uma marca que deixa de operar apenas como oferta e passa a funcionar como território simbólico de reconhecimento, linguagem, identidade e ação coletiva. Uma marca comum pergunta “como eu vendo?”; uma marca de pertencimento pergunta “quem a pessoa sente que se torna quando se aproxima de mim?”. Essa diferença é decisiva porque as pessoas não compram apenas produtos: elas compram sinais de identidade, pertencimento e significado. Belk (1988) demonstra que objetos, posses e marcas participam da construção do “eu estendido”, ou seja, aquilo que a pessoa usa, veste, compra, compartilha e defende ajuda a compor a imagem que ela tem de si mesma. Maslow (1954), por outro caminho, já posicionava amor, vínculo e pertencimento como necessidades humanas centrais. Raynsford (2022), em How to Start a Cult, radicaliza essa leitura no campo da marca: o produto é muitas vezes apenas o ingresso; o pertencimento é o espetáculo. Ninguém tatua uma marca no corpo porque ela entregou uma funcionalidade razoável. Ninguém defende espontaneamente uma empresa porque ela tem um funil organizado. A defesa nasce quando a marca responde a uma pergunta íntima: “quem eu sou quando escolho isso?”. Harley-Davidson, Apple, Supreme, Nike, Patagonia ou Tesla não operam apenas como fornecedoras de motos, computadores, roupas, tênis, jaquetas ou carros; operam como sistemas de identidade, distinção e narrativa cultural. Por isso, marketing de pertencimento não é manipular carência emocional. Manipulação tira poder da pessoa. Pertencimento devolve linguagem, direção e coragem. Manipulação diz “sem mim, você não é nada”. Pertencimento diz “você já sente isso; eu estou dando nome, símbolo e caminho”. Quando essa operação é ética, a marca não sequestra a identidade do público; ela oferece um território para que o público reconheça melhor a si mesmo.

O primeiro passo do marketing de pertencimento é formular uma crença central, porque nenhuma comunidade nasce ao redor de uma descrição burocrática. “Eu vendo curso”, “eu faço vídeo”, “eu tenho uma palestra” ou “eu crio conteúdo” são frases de categoria; servem para explicar, mas não para reunir. A crença é diferente: ela organiza uma visão de mundo. Ela diz o que a marca defende, o que rejeita, por que existe e por que alguém deveria se importar. Em termos de branding, essa crença funciona como núcleo de identidade, orientando promessa, linguagem, comportamento e percepção pública da marca (AAKER, 1996; KAPFERER, 2012). Uma crença forte precisa ser clara, contrastante e útil. Clara para ser entendida. Contrastante para ter posição. Útil para ajudar o público a interpretar a própria vida. “Ninguém muda de vida porque recebeu motivação; as pessoas mudam quando criam sistema, encaram a verdade e executam apesar do caos” é mais forte do que “conteúdo de desenvolvimento pessoal”, porque a primeira frase cria mundo, enquanto a segunda apenas ocupa uma prateleira. Raynsford (2022) reforça que movimentos fortes não crescem apenas dizendo o que amam; crescem também dizendo o que rejeitam. Apple não vendeu apenas computadores; vendeu a ideia de pensar diferente contra a computação burocrática. Tesla não vendeu apenas carros; vendeu ruptura contra a indústria automobilística tradicional. Patagonia não vende apenas roupa; vende responsabilidade contra o consumo inconsequente. Essa fronteira é vital porque, quando tudo é para todo mundo, nada é profundamente necessário para ninguém. Por isso, uma marca de pertencimento precisa escolher quem serve, quem não serve, o que acredita e o que combate. Não para criar ódio. Para criar forma. Forma é o que permite identificação. Sem forma, a marca escorre.

O segundo passo é definir o inimigo simbólico e o povo da marca, porque pertencimento exige fronteira, conflito e reconhecimento. Tajfel e Turner (1979), ao tratarem da identidade social, mostram que grupos se organizam por identificação e diferenciação: para existir um “nós”, é preciso haver alguma distinção em relação ao que “nós” não somos. No marketing de pertencimento, o inimigo não deve ser uma pessoa, uma classe ou um alvo humano; deve ser uma força simbólica que o público reconhece como obstáculo. Pode ser a procrastinação, a vida no automático, a criatividade sem execução, a autoajuda anestésica, o excesso de dopamina, o conteúdo sem alma, o vitimismo, o “um dia eu faço” ou a vergonha de começar pequeno. Raynsford (2022) chama atenção para a função estratégica do inimigo: movimentos fortes criam bordas claras, e bordas claras dizem às pessoas se elas pertencem ou não. Depois disso, a marca precisa abandonar a persona morta de slide e encontrar uma confissão real. Público-alvo diz “homens e mulheres, 25 a 44 anos, classe B/C”. Povo diz “adultos cansados que sabem que têm potencial, mas estão presos em boleto, culpa, ansiedade, distração, falta de método e vergonha de recomeçar”. Comunidade nasce quando a marca diz pela pessoa aquilo que ela ainda não tinha coragem ou linguagem para dizer sozinha. Na nossa Comunidade, o produto profundo não é o livro, a palestra, o curso ou a comunidade. O produto profundo é a identidade: “adultos cansados que decidiram parar de esperar serem salvos”. O inimigo é a anestesia adulta: vitimismo, procrastinação, dopamina barata, autoajuda vazia e planejamento falso travestido de prudência. O desejo superficial desse povo é “ser mais produtivo”. O desejo real é “organizar a vida e parar de se sentir um desperdício”. O desejo secreto é “provar que ainda posso ser alguém grande”. A frase certa não bajula nem humilha; organiza: “você não está atrasado porque é burro; você está atrasado porque passou anos sobrevivendo sem sistema”.

O terceiro passo é criar símbolos, linguagem, rituais e prova, porque uma marca de pertencimento não vive apenas de posicionamento; ela precisa ser reconhecida, repetida e praticada. Muniz Jr. e O’Guinn (2001) definem comunidades de marca como formas de comunidade não geograficamente delimitadas, sustentadas por relações sociais entre admiradores de uma marca, consciência compartilhada, rituais, tradições e senso de responsabilidade moral. Raynsford (2022) trabalha a mesma lógica em registro provocativo: tribos precisam de símbolos porque símbolos reduzem complexidade e funcionam como atalhos cognitivos. Uma cruz, uma bandeira, um slogan, uma cor, um gesto ou uma palavra dizem rapidamente: “você é um dos nossos”. Na nossa comunidade, os símbolos são facão, matagal mental, trator, centímetro periférico e a própria palavra FODAMENTE. A linguagem transforma esses símbolos em senhas sociais: Modo Boleto, Cassino de Dopamina, Queimada Controlada, Ninguém Vem Te Salvar, Diário da Morte, Caixa-Preta, Microajuste Brutal. Quando o público usa essas palavras para explicar a própria vida, a marca saiu do post e entrou na cultura. Mas linguagem sem ritual vira camiseta bonita sem corpo dentro. Ritual é a repetição que faz a crença parecer real. Assistir a um programa diariamente, ir ao estádio, usar um item específico, postar uma hashtag, participar de um evento anual ou cumprir um desafio semanal são práticas que consolidam lealdade. No FODAMENTE, o ritual pode ser o microajuste diário, o Diário da Morte, o Print da Execução, a Sexta da Caixa-Preta, os vídeos semanais ou os desafios de execução. O pertencimento não nasce apenas da crença proclamada. Nasce da crença repetida em comportamento. Por isso, conteúdo, nesse sistema, não é postagem solta; é convocação. Ele faz a pessoa ver, salvar, compartilhar, comentar, responder, entrar em uma lista, participar de um desafio, comprar uma oferta simples, entrar na comunidade e, finalmente, defender.

O quarto passo é transformar o pertencimento em arquitetura: liderança, manifesto, comunidade mínima, oferta inicial e repetição. Raynsford (2022) lembra que pessoas seguem pessoas antes de seguirem empresas, porque o líder é a versão humana da narrativa. Steve Jobs não era apenas executivo da Apple; era uma encarnação pública do “Think Different”. Elon Musk, Walt Disney e Arnold Schwarzenegger também funcionam, cada um à sua maneira, como figuras que condensam missão, mito, conflito e aspiração. Isso não significa criar personagem falso. Significa assumir a responsabilidade de representar a crença que se pretende liderar. Holt (2004) mostra que marcas icônicas respondem a tensões culturais e oferecem mitos capazes de organizar conflitos sociais; Jenkins, Ford e Green (2013) mostram que conteúdos se espalham quando carregam valor social, emocional e identitário para quem os compartilha. Portanto, uma marca de pertencimento precisa ser mais do que bonita: precisa ser transmissível. O manifesto declara a crença, o inimigo, o povo, a promessa, o ritual e a frase central. A comunidade mínima transforma isso em prática compartilhada. A oferta inicial transforma prática em compromisso. A prova transforma compromisso em reputação. Uma estrutura simples pode ser mais poderosa do que uma operação gigante: um desafio de cinco dias, uma aula aberta, uma comunidade mensal ou uma palestra podem funcionar se carregarem a mesma crença, a mesma linguagem, os mesmos símbolos e o mesmo ritual. Na comunidade FODAMENTE, o manifesto poderia dizer: “nós acreditamos que ninguém muda de vida só porque foi inspirado; rejeitamos a autoajuda anestésica e a fantasia do momento perfeito; lutamos contra a paralisia adulta; existimos para devolver método para quem ainda tem fogo, mas perdeu direção; aqui ninguém performa sucesso, prova execução; nosso ritual é cortar um pedaço do matagal por dia; nossa promessa é que você não vai vencer tudo hoje, mas vai parar de abandonar a si mesmo em silêncio; nossa frase é: não é talento, é sistema”. No fim, marketing de pertencimento é a passagem de atenção para devoção ética. Atenção diz “legal esse conteúdo”. Devoção ética diz “isso aqui sou eu, mas eu continuo livre”. Marca não é o que você posta; é o que as pessoas repetem quando você não está presente. Quando alguém encontra sua marca e pensa “era isso que eu estava tentando dizer”, você não tem apenas audiência. Você tem território. E território bem cuidado vira comunidade, produto, prova, reputação, cultura e movimento.

Referências

AAKER, David A. Building strong brands. New York: Free Press, 1996.
BELK, Russell W. Possessions and the extended self. Journal of Consumer Research, Chicago, v. 15, n. 2, p. 139-168, 1988.
HOLT, Douglas B. How brands become icons: the principles of cultural branding. Boston: Harvard Business School Press, 2004.
JENKINS, Henry; FORD, Sam; GREEN, Joshua. Spreadable media: creating value and meaning in a networked culture. New York: New York University Press, 2013.
KAPFERER, Jean-Noël. The new strategic brand management: advanced insights and strategic thinking. 5. ed. London: Kogan Page, 2012.
MASLOW, Abraham H. Motivation and personality. New York: Harper & Row, 1954.
MUNIZ JR., Albert M.; O’GUINN, Thomas C. Brand community. Journal of Consumer Research, Chicago, v. 27, n. 4, p. 412-432, 2001.
RAYNSFORD, Jody. How to start a cult: be bold, build belonging and attract a band of devoted followers to your brand. [S. l.]: Known Publishing, 2022. Dados editoriais consultados em fontes bibliográficas e comerciais que registram a obra como publicada pela Known Publishing, em 2021/2022, com ISBN 9781913717698/9781913717704.  
TAJFEL, Henri; TURNER, John C. An integrative theory of intergroup conflict. In: AUSTIN, William G.; WORCHEL, Stephen (org.). The social psychology of intergroup relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979. p. 33-47.

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