Alguém Ainda Precisa Gerar Sentido
Narrativa de marca não é campanha com frases bonitas. É uma forma de construir mundo. Quando uma marca entende isso, ela para de pedir atenção e começa a merecer presença. Conteúdo de marca, quando tratado com profundidade, não é conteúdo para ocupar calendário, alimentar rede social ou justificar mídia. É linguagem estratégica. É cinema, cultura, comportamento, ponto de vista e produção trabalhando juntos para fazer uma marca deixar de parecer anunciante e começar a agir como autora. Narrativas de Marca importam tanto: porque tratam o tema no lugar certo, não como enfeite de campanha, mas como disciplina. Marca forte não é a que aparece mais. É a que significa melhor. Como afirma Holt (2004), marcas icônicas não se constroem apenas por diferenciação funcional, mas pela capacidade de condensar tensões culturais e devolver ao público uma forma simbólica de pertencimento.
O problema é que, por aqui, conteúdo de marca muitas vezes ainda é tratado como filme institucional com verniz cinematográfico. Falta conflito. Falta atmosfera. Falta tensão narrativa. Falta entender que uma marca não vira relevante quando invade a vida das pessoas, mas quando cria uma experiência que elas aceitam atravessar. Jenkins (2009) mostra que as histórias deixaram de viver em uma única peça: elas circulam entre plataformas, comunidades, cortes, eventos, comentários, bastidores e conversas. Isso muda o jogo. Um conteúdo de marca não pode ser pensado como um vídeo isolado, mas como ecossistema narrativo. A marca entra como campo de força, não como interrupção. Entra como mundo, não como assinatura no canto da tela. É o que séries e projetos como The Hire, da BMW Films, demonstraram muito antes de o mercado chamar tudo de conteúdo de marca: o produto está ali, mas o que segura a atenção é cinema, atmosfera, desejo e direção.
No audiovisual, essa diferença aparece na forma. Um filme de marca não comunica apenas pelo roteiro, pela locução ou pela assinatura final. Ele comunica pelo enquadramento, pela luz, pela textura, pelo ritmo, pelo som, pela cor, pelo silêncio, pela escolha da câmera e pelo acabamento. Bordwell e Thompson (2013) lembram que o cinema nasce da relação entre narrativa e estilo; no conteúdo de marca, isso é brutalmente decisivo. Uma marca pode dizer que é sofisticada e entregar imagem genérica. Pode dizer que é humana e soar fria. Pode dizer que é inovadora e repetir todos os clichês visuais do mercado. Narrativa de marca separa intenção de execução. E execução, nesse caso, também é pensamento. Uma Aventura LEGO mostra isso com clareza: uma marca pode deixar de vender apenas produto e construir universo, linguagem, humor, conflito, personagem e visão de mundo. Quando isso acontece, o conteúdo deixa de parecer propaganda e começa a operar como cultura.
É nessa ponta que a inteligência artificial muda o jogo. IA aplicada à produção e finalização de conteúdo de marca não é apertar botão, gerar imagem bonita e chamar de futuro. Isso é espuma visual. O trabalho real começa antes: entender o conceito, organizar o briefing, decupar intenção, construir referências, testar caminhos, prototipar linguagem, prever gargalos e transformar uma ideia abstrata em entrega possível. Manovich (2020) ajuda a entender esse ambiente ao tratar a cultura digital como um campo de recombinação, automação e análise algorítmica. Mas recombinar não basta. No conteúdo de marca, é preciso saber o que está sendo recombinado, por quê, para quem e com qual efeito cultural. A IA entra na pesquisa, no painel de referências, no roteiro visual, na pré-visualização, na geração de imagens, nas vozes, nas versões, nas legendas, no tratamento visual, na montagem, na finalização e na distribuição. Mas ela só tem valor quando entra dentro de um método. Sem direção, ela acelera o vazio.
Minha força está justamente nesse cruzamento entre linguagem, produção e pensamento. A escrita aparece como ferramenta de precisão, não como ornamento. Escrever, nesse contexto, é organizar caos. É pegar um briefing nebuloso, uma referência torta, uma ansiedade de cliente, uma urgência de prazo, uma promessa de marca e transformar tudo em estrutura. McKee (2006) trata a narrativa como arquitetura de conflito, progressão e escolha; Vogler (2015) mostra como jornadas simbólicas organizam transformação, desejo e travessia. Essas referências importam porque conteúdo de marca não vive de frase esperta. Vive de tensão bem nomeada. Eu escrevo como quem monta: cortando excesso, ajustando ritmo, criando passagem, limpando ruído. Produzo como quem dirige: olhando para intenção, custo, tempo, equipe, risco, entrega e acabamento. Finalizo como quem entende que textura, corte, silêncio, cor e tempo narrativo também contam história. É menos currículo. É método. É menos “eu sei fazer”. É “eu sei atravessar”.
O conteúdo de marca que me interessa é esse: profundo, útil, bonito, estratégico e executável. Uma narrativa que não termina no filme, mas abre conversa, cria repertório e posiciona a marca dentro da cultura. Chef’s Table e Abstract: The Art of Design mostram como personagem, sensorialidade, detalhe, ritmo e ponto de vista podem transformar um tema específico em experiência cultural ampla. Ela, Ex Machina e Black Mirror ajudam a pensar a tensão entre tecnologia, desejo, subjetividade e controle — questões centrais quando a IA passa a participar da criação audiovisual. No fim, tecnologia nenhuma salva uma ideia fraca. A IA pode gerar imagem. Mas alguém ainda precisa gerar sentido. O que sustenta uma entrega é visão, método, escrita, repertório e execução. Não é ferramenta. É linguagem. Não é volume. É precisão. Não é parecer moderno. É construir algo que aguente ser visto.
Referências bibliográficas
BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A arte do cinema: uma introdução. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Edusp, 2013.
HOLT, Douglas B. Como as marcas se tornam ícones: os princípios do branding cultural. São Paulo: Cultrix, 2005.
JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.
KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 4.0: do tradicional ao digital. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.
MANOVICH, Lev. Análise cultural. Tradução livre de: Cultural analytics. Cambridge: MIT Press, 2020.
MARTEL, Frédéric. Mainstream: a guerra global das mídias e das culturas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Curitiba: Arte & Letra, 2006.
ROSE, Frank. A arte da imersão: como a geração digital está transformando Hollywood, Madison Avenue e o modo como contamos histórias. Tradução livre de: The art of immersion. Nova York: W. W. Norton, 2011.
SEMPRINI, Andrea. A marca pós-moderna: poder e fragilidade da marca na sociedade contemporânea. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2010.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores. 3. ed. São Paulo: Aleph, 2015.
Referências cinematográficas e audiovisuais
ABSTRACT: THE ART OF DESIGN. Criação: Scott Dadich. Estados Unidos: Netflix, 2017–2019. Série documental.
BLACK MIRROR. Criação: Charlie Brooker. Reino Unido: Channel 4; Netflix, 2011–. Série televisiva.
CHEF’S TABLE. Criação: David Gelb. Estados Unidos: Netflix, 2015–. Série documental.
ELA. Direção: Spike Jonze. Estados Unidos: Annapurna Pictures; Warner Bros. Pictures, 2013. Filme.
EX MACHINA. Direção: Alex Garland. Reino Unido: Film4; DNA Films, 2014. Filme.
THE HIRE. Direção: John Frankenheimer et al. Estados Unidos: BMW Films, 2001–2002. Série de curtas publicitários.
UMA AVENTURA LEGO. Direção: Phil Lord; Christopher Miller. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2014. Filme.
O DILEMA DAS REDES. Direção: Jeff Orlowski. Estados Unidos: Exposure Labs; Netflix, 2020. Documentário.